Apesar de o Brasil registrar níveis historicamente baixos de desemprego e controle da inflação, o endividamento das famílias atingiu 49,8%, quase metade da renda anual. Esse é o maior índice observado durante a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, sendo apenas ligeiramente inferior ao recorde de 49,9% registrado em julho de 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro.
Os dados, divulgados recentemente pelo Banco Central, indicam que a dívida das famílias brasileiras inclui financiamentos, empréstimos pessoais, crédito consignado e cartões de crédito. Além disso, a inadimplência também apresentou crescimento, alcançando 6,9% em dezembro de 2023 no segmento de crédito livre, uma alta de 1,7 pontos percentuais em um ano.
Taxas elevadas de juros impactam a situação financeira
O comprometimento da renda das famílias com empréstimos e financiamentos permanece em 29,3%, um máximo histórico para a série. Este cenário é atribuído às altas taxas de juros, que acompanham a Taxa Selic, atualmente em 15% ao ano — o maior nível desde julho de 2006.
O economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes, destaca que essa taxa elevada afeta diretamente as condições de crédito. No crédito livre, a taxa média de juros ultrapassa 60% ao ano, um aumento significativo que não se via desde 2017. Mesmo com as parcelas mais onerosas, o crédito às famílias cresceu, com o saldo das operações livre totalizando R$ 2,5 trilhões em dezembro, um aumento de 13,2% no ano.
Cartão de crédito se torna a opção mais utilizada
O crescimento das concessões de crédito às pessoas físicas foi de 8,8% no último ano. O destaque recai sobre o cartão de crédito, cujo montante devido cresceu 17,1% em 2025. Bentes observa que essa modalidade de crédito é utilizada não por ter taxas atrativas, mas pela sua acessibilidade imediata, permitindo que os consumidores equilibrem suas finanças.
Um exemplo é a pensionista Maria das Graças Barros, de 64 anos, que afirma utilizar o cartão para arcar com despesas essenciais, como material escolar para seus bisnetos, optando por parcelar as compras. Dados da Tendências Consultoria indicam que o nível de endividamento pode ser ainda maior, alcançando 54% da renda das famílias, ao considerar o parcelamento no cartão em até dez vezes.
A sócia da Tendências, Alessandra Ribeiro, ressalta que o aumento da taxa de juros, combinado com prazos médios mais curtos, contribui para a escalada do endividamento. Além disso, as dificuldades financeiras de outros consumidores são exemplificadas pela vendedora Virgínia da Silva, de 22 anos, que utiliza crédito para diversas despesas, muitas vezes recorrendo a empréstimos quando a situação se torna insustentável.
Após uma queda no índice de endividamento no início do terceiro mandato de Lula, que ficou em 47,7% em dezembro de 2023 devido ao programa Desenrola, a situação voltou a se agravar com o novo ciclo de aperto monetário e a elevação da Selic a partir de setembro de 2024.
Possibilidade de crédito mais acessível em 2026?
Bentes sugere que o governo considere a reedição do programa Desenrola, que auxiliou na quitação de dívidas no passado, como uma forma de mitigar a piora das condições de crédito. Ele acredita que a expectativa de um início de cortes na Selic em março proporcionará alívio econômico a partir de setembro, impulsionando o varejo, que enfrenta um crescimento modesto.
A especialista Alessandra acredita que, enquanto o papel do Desenrola é agora em parte ocupado pelo Crédito ao Trabalhador — uma plataforma de empréstimo consignado privado com juros mais baixos —, outros fatores, como o aumento da renda disponível graças à ampliação da isenção do Imposto de Renda, devem reduzir a pressão sobre o endividamento.
Ela observa que a queda gradual das taxas de juros, embora ainda lenta, poderá aliviar os custos de crédito, contribuindo para a estabilidade financeira das famílias, que, apesar do contexto de crescimento moderado no mercado de trabalho, têm encontrado dificuldades para se manterem equilibradas financeiramente.

