O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE) apresenta benefícios limitados para o agronegócio brasileiro, podendo intensificar a divisão produtiva no campo e restringir as vantagens a um pequeno grupo de produtores capitalizados. Especialistas consultados pelo Broadcast Agro afirmam que a combinação de cotas restritas e o aumento das barreiras não tarifárias, especialmente as ambientais, favorece predominantemente grandes empresas exportadoras, em detrimento de pequenos produtores.
Leandro Gilio, pesquisador e professor do Insper Agro Global, destaca que as quantidades de produtos permitidas no acordo – 99 mil toneladas de carne bovina e 180 mil toneladas de aves – representam uma porcentagem reduzida, entre 1,5% e 2%, do mercado consumidor europeu. Esses limites, segundo Gilio, serão prioritariamente acessados por grandes empresas, as únicas com capacidade para lidar com os complexos processos de licenciamento exigidos pela UE.
“As cotas limitam significativamente qualquer benefício do acordo, especialmente considerando que o Brasil exportou mais de 3 milhões de toneladas de carne em 2025. Assim, é provável que esses ganhos fiquem restritos a grandes companhias, enquanto frigoríficos de médio porte poderão ser excluídos”, afirma Gilio.
Alexandre Mendonça de Barros, professor de Economia Agrícola da Fundação Getúlio Vargas (FGV), também acredita que o impacto para o setor agrário será “muito pequeno”. Ele qualifica o tratado como um “mar de restrições” e diz que serve mais para pressionar a concessão de subsídios por parte dos agricultores europeus do que para promover uma real abertura comercial.
Barreiras Técnicas
A implementação do acordo apresenta desafios operacionais além das tarifas. O principal obstáculo é a adequação às regras internas da UE, destacando-se o Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que deve entrar em vigor no final de 2026. A especialista em relações Brasil-União Europeia, Giselle Galdi, alerta que essa exigência demandará sistemas avançados de rastreabilidade e “due diligence” com geolocalização. Para o setor de bovinos, a adaptação exigirá rastreabilidade individual, superando o modelo de controle por lote predominante no Brasil.
“O maior risco é a combinação das regras atuais da UE, como normas sanitárias e de bem-estar animal, com o escrutínio político sobre as cadeias agro”, ressalta Galdi. Gilio complementa que essa situação agrava a perspectiva de um “agro de duas velocidades”, onde menos de 5% dos produtores concentram a maior parte dos investimentos e produtividade, colocando pequenos proprietários em risco de exclusão do mercado internacional.
Embora tenha sido aprovada a Lei da Reciprocidade em 2025, que permite ao Brasil responder a medidas discriminatórias, Galdi acredita que questões em caso de divergências devem ser tratadas via harmonização prática, ao invés de um “espelhamento” estrito.
Salvaguardas e Café
Outro aspecto crítico envolve os mecanismos de defesa comercial, como as salvaguardas que podem ser acionadas após um aumento de 5% nas importações de produtos sensíveis. Enquanto Galdi vê o gatilho como uma fonte de insegurança jurídica, o secretário de Comércio e Relações Internacionais, Luis Rua, defende que é uma regra interna do bloco europeu. Rua projeta que o Brasil ocupará a maior parte das cotas devido a critérios de desempenho histórico e destaca que o acordo possui mecanismos de reequilíbrio.
No segmento do café, a eliminação das tarifas para produtos solúveis e torrados em um período de quatro anos cria incentivos para a exportação de itens com maior valor agregado. Galdi observa que o principal benefício será o aumento das vendas de produtos finalizados do Brasil. No entanto, tanto ela quanto Gilio descartam uma migração significativa de indústrias europeias para o país, uma vez que o mercado envolve aspectos de diferenciação que limitam a transferência de fábricas industriais.

