As transcrições das reuniões do Federal Reserve (Fed) de 2020, divulgadas na última sexta-feira, 16 de fevereiro, revelaram novos detalhes sobre a gestão da política monetária durante um período crítico da pandemia de Covid-19. O presidente do Fed, Jerome Powell, defendeu, na reunião de setembro de 2020, uma diretriz clara em relação às condições necessárias para o aumento das taxas de juros, que estavam em zero desde março daquele ano. Essa posição foi confirmada apesar das objeções de alguns membros do comitê.
Powell alegou que era essencial uma comunicação decisiva sobre a manutenção das taxas de juros próximas de zero para estimular o que ele previa ser uma longa recuperação econômica após a pandemia. Alguns colegas se opuseram, mas optaram por não manifestar publicamente suas preocupações. O Fed publica, regularmente, atas editadas de suas reuniões três semanas após cada encontro, enquanto as transcrições completas são divulgadas após cinco anos.
Esse novo conjunto de documentos destaca o papel fundamental de Powell durante as tensões geradas pela pandemia. Críticos apontam que o compromisso firme com as taxas de juros recomendando por ele ajudou a atrasar a resposta do Fed à inflação crescente nos anos seguintes. Após a reunião de setembro de 2020, a declaração do Fed indicou a intenção de manter as taxas de juros inalteradas até que o mercado de trabalho alcançasse níveis considerados compatíveis com pleno emprego e a inflação se aproximasse de 2%.
Na época, a meta de inflação preferida pelo Fed estava em 1,3%, com previsões de que não chegaria a 2% até 2023. Contudo, a inflação disparou no ano seguinte, atingindo 7,2% em meados de 2022. Embora muitos membros do Fed, incluindo Powell, considerassem a inflação temporária, essa avaliação se revelou problemática.
Durante a reunião, dois formuladores de políticas, Rob Kaplan e Neel Kashkari, discordaram da decisão de manter um compromisso tão forte com as taxas de juros próximas de zero. Kaplan, ex-presidente do Fed de Dallas, expressou resistência à ideia, enquanto Kashkari pleiteou um comprometimento ainda mais robusto. O Fed optou por manter as taxas de juros em um clima de inflação crescente.
Transcrições indicam que outros formuladores, como os presidentes do Fed de Boston, Richmond e Atlanta, também tinham preocupações semelhantes, mas, surpreendentemente, concordaram com a decisão em questão. Loretta Mester, presidente do Fed de Cleveland, observou que as mudanças propostas eram substancialmente significativas e destacou a necessidade de discutir melhor as suas implicações.
Powell, por sua vez, pressionou pela adoção imediata da nova abordagem. “Agora é o momento de concentrar nossas políticas no apoio à economia enquanto ela busca uma recuperação completa”, declarou ele durante a reunião. Esse debate ocorreu em um momento em que o Fed já havia anunciado uma revisão histórica de sua estratégia de política monetária, enfatizando uma abordagem menos reativa a situações de baixo desemprego.
Restou claro que Powell estava ciente de que o Fed precisava demonstrar sua continuidade na nova abordagem. “Se assim não for, corre-se o risco de que as pessoas pensem que não há nada de novo aqui”, ponderou o presidente.
Com o desenrolar dos eventos, Powell se mostrou arrependido da orientação dada durante essa reunião em um evento mais tarde em 2022, reconhecendo que a política de não retomar atividades a menos que houvesse pleno emprego e estabilidade de preços não seria uma estratégia que ele adotaria novamente.
Além disso, as transcrições ressaltam que, em uma reunião antecipada em 2 de março de 2020, Powell já reconhecia a gravidade da pandemia, antecipando a necessidade de ação do Fed antes que a crise se intensificasse. “Os mercados precisam de um sinal claro de que o Federal Reserve entende a importância da situação e agirá para apoiar a economia”, afirmou.
Esses registros evidenciam as nuances e desafios enfrentados pelo Fed sob a liderança de Powell durante um período turbulento da economia global.

