Desde dezembro, o cenário nos bares e restaurantes do Rio de Janeiro é marcante, com mesas e cadeiras ocupando calçadas lotadas. O aumento dos turistas é evidente, refletido também no movimento de prédios que oferecem apartamentos para aluguel por temporada e na multidão de pedestres no calçadão de Copacabana, que navega entre os estandes de camelôs. Os diferentes sotaques ouvidos nas praias e ruas até altas horas reforçam a presença de visitantes, evidenciando um verão movimentado na Cidade Maravilhosa.
Dados das secretarias municipais de Turismo e Desenvolvimento Econômico projetam que o Rio receberá cerca de 5,7 milhões de turistas entre residentes e visitantes internacionais durante esta temporada. Esse número representa um crescimento de 14% em relação ao ano passado, destacando a vocação do Rio para o turismo e seu impacto na economia local.
As estatísticas do Aeroporto Internacional do Galeão revelam um movimento histórico, com a previsão de que 17,8 milhões de passageiros passem pelo terminal em 2025, batendo recordes históricos.
Especialistas e autoridades apostam que, embora o cenário atual não se assemelhe ao hiperturismo visto em cidades como Barcelona e Roma, os desafios na gestão do fluxo turístico são evidentes. A necessidade de soluções inclusivas e eficazes é essencial para garantir uma convivência harmônica entre turistas e moradores.
Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, destaca a reabertura de postos avançados da Riotur na Avenida Atlântica e a importância de soluções para melhorar a sinalização turística e a fiscalização de ambulantes. “Faltam esforços de inteligência”, afirma Magalhães, referindo-se à dinâmica de fiscalização que muitas vezes acaba se tornando uma “corrida de gato e rato”.
Efeitos no dia a dia
Os próprios moradores notam os impactos do turismo em seu cotidiano. Morgana Freitas, que costuma visitar Copacabana aos domingos, sugere que “o horário da área de lazer poderia ser estendido até 21h.” Em Ipanema, Ana Luiza Folly observa a dificuldade de mobilidade causada pela presença crescente de bicicletas e a superlotação dos bares, propondo mais organização e educação no espaço público.
Marcelo Freixo, presidente da Embratur, enfatiza a relevância do turismo no Brasil, que representa cerca de 8% do PIB nacional, com uma expectativa de crescimento para 9,3 milhões de visitantes internacionais em 2025. Contudo, um dos desafios para o Rio é a descentralização do turismo, favorecendo experiências fora da tradicional Zona Sul.
Osiris Marques, pesquisador da UFF, e Felipe Felix, professor de Turismo do Cefet, ressaltam que o caso do Rio não se compara ao fenômeno do overtourism. Eles contextualizam que a superlotação nas praias pode ser uma incidência do calor intenso, atraindo também moradores de outras regiões metropolitanas.
Com 214 mil visitantes recebendo o Museu do Amanhã no verão de 2024/2025, um crescimento comparativo de 11 mil visitantes em relação à estação anterior, o potencial turístico é evidente.
Iniciativas em prática
A crescente demanda por melhorias na infraestrutura é necessária. Sugestões como a criação de um aplicativo para monitorar o fluxo turístico em tempo real e a implementação de um sistema de gestão de visitantes, similar ao de Dubrovnik, são mencionadas como soluções viáveis. Além disso, Felix sugere que o sistema de transporte público, como metrôs e trens, deve ser adaptado em fins de semana e feriados, com um plano de limpeza urbana aprimorado.
Em relação ao aluguel por temporada, uma regulamentação que assegure segurança para os moradores e normas de convivência é considerada importante. O foco está em evitar a adoção de medidas radicais que não sejam necessárias.
A secretária municipal de Turismo, Daniela Maia, anunciou para março o início das obras na Escadaria Selarón, um importante ponto turístico que recebe anualmente mais de 1,5 milhão de visitantes. O vice-prefeito Eduardo Cavaliere também se comprometeu a divulgar um calendário turístico anual para equilibrar a concentração de visitantes.
Contudo, situações de espera, como a vivida por Liriel Barboza ao aguardar por mais de 50 minutos para um café no Forte de Copacabana, refletem a realidade das atividades turísticas no local.
Apesar das dificuldades, os números revelam que o Rio continua a ser um destino prioritário para turistas de todo o mundo. Dados apontam que, embora a maior parte dos visitantes sejam nacionais (83,1% dos 12,5 milhões que visitaram a cidade no ano passado), o crescimento no número de turistas internacionais, que aumentou 44,8% de 2024 para 2025, é notável.
Píer Mauá: Movimento intenso
O Píer Mauá se destaca como uma das áreas mais movimentadas, com previsão de atracação de 28 navios nesta temporada, sendo 21 deles de roteiros internacionais, podendo trazer aproximadamente 240 mil visitantes. A estimativa é de que os passageiros injetem cerca de R$ 193,3 milhões na economia local.
Marcello Chagas, gerente de operações do Píer, enfatiza que uma experiência positiva depende tanto dos serviços prestados quanto do suporte da administração pública. Já Jorge Chaves, diretor comercial da Rede Othon, defende que um planejamento cuidadoso sobre segurança, mobilidade e limpeza é fundamental para o sucesso turístico na cidade.

