O mercado financeiro apresenta a primeira projeção de inflação abaixo de 4% para 2026 desde dezembro de 2024. O Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (2) pelo Banco Central, apontou uma redução da mediana das estimativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que caiu de 4% para 3,99%, marcando a quarta redução consecutiva no indicador.
Diante do ceticismo em relação ao equilíbrio das contas públicas, que podem afetar a inflação devido ao aumento dos gastos governamentais, analistas e economistas destacam que fatores globais e situações setoriais específicas estão prevalecendo sobre os riscos fiscais internos, permitindo uma perspectiva mais otimista para a inflação no próximo ano.
A economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, ressalta que, embora as questões fiscais continuem relevantes, seu impacto sobre os preços não é linear nem imediato. O cenário atual oferece oportunidades de revisão nas projeções.
Quando comparada a janeiro de 2025, quando a projeção de inflação estava acima de 6%, mas se encerrando o ano em 4,26%, a expectativa para 2026 também é de cautela e revisão. Quatro fatores foram identificados como responsáveis pela tendência de queda na inflação, enquanto outros quatro representam riscos que precisam ser monitorados.
A ‘ajudinha’ do câmbio
O câmbio desponta como um dos principais fatores que diminuem as projeções de inflação. Segundo a XP, o comportamento da taxa de câmbio, que tem seguido uma tendência global de desvalorização do dólar, tem contrabalançado as tensões fiscais brasileiras. Alexandre Maluf, economista da XP, afirma que essa realidade global de uma moeda americana desvalorizada controla os preços no Brasil, ressaltando que as mudanças no câmbio colaboram para a revisão das perspectivas do Boletim Focus. Já Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, acredita que o país teve sorte, uma vez que outras potências econômicas enfrentam indicadores fiscais mais complicados.
Política de juros restritiva
Atualmente, a taxa básica de juros está em 15%, o que deve ser considerado na análise dos preços, já que o aumento das taxas de juros é uma estratégia utilizada para controlar a inflação. Embora o mercado espere cortes na Selic a partir de março, o impacto das taxas ainda é claramente observado em uma melhora das expectativas inflacionárias.
Victal ainda complementa que os economistas projetam uma desaceleração da atividade econômica, refletindo em um consumo mais moderado e um mercado de trabalho em esfriamento. Essa desinflação também é vista como resultado de uma economia que começa a desacelerar.
Produção agrícola e supersafra
A combinação de fatores favoráveis, como boas safras agrícolas, tem neutralizado o desequilíbrio das contas públicas e deve continuar em 2026, segundo Saadia. Ele aponta que a supersafra de alimentos, uma moeda externa fraca, tarifas que facilitaram o consumo interno e a queda dos preços das principais commodities têm colaborado para a desinflação. Maluf, também otimista, projeta novos recordes de safras e preços estáveis de grãos, o que deve impactar positivamente a cadeia produtiva.
Comida e tarifas
Outro aspecto benéfico refere-se à dinâmica de preços internos, em especial na alimentação e nas tarifas governamentais. Em 2025, a variação de preços de alimentos e bebidas fechou em 2,95%, abaixo do índice geral, que foi de 4,26%. A boa safra prevista deve manter os preços em queda. Quanto aos preços administrados, a projeção foi revisada marginalmente para 3,75% para o final de 2026, o que pode ser ainda mais ajustado dado o ano eleitoral.
Queda do preço do petróleo
O recente reajuste na gasolina pela Petrobras também contribui para a queda nas projeções de inflação. Segundo Maluf, o mercado já esperava essa mudança nos preços e a nova política de preços reflete-se nas expectativas do mercado e nos custos de transporte.
Exportação de desinflação da China
De acordo com José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial, a competitividade da produção chinesa está ajudando a conter a inflação brasileira, uma vez que a oferta exagerada em relação à demanda força as empresas locais a manterem os preços sob controle.
Possíveis riscos na inflação
Embora as condições externas e a produção de alimentos ofereçam um alívio, os gastos públicos internos permanecem como a maior fonte de pressão sobre os preços. Especialistas advertiram que a política fiscal expansionista pode impedir uma queda mais acentuada do IPCA.
Saadia aponta para riscos associados a estímulos governamentais que geralmente ocorrem em anos eleitorais, cuja repercussão poderá ser notada a partir do primeiro trimestre de 2026. Medidas como isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil e a expansão do crédito consignado privado figuram entre essas preocupações.
Victal alerta ainda para a pressão sobre preços de serviços, e reforça a necessidade de um manejo econômico cauteloso para assegurar que a inflação permaneça sob controle. Maluf também menciona riscos como a flutuação cambial e eventuais desastres climáticos que poderiam impactar a produção de alimentos.
No que diz respeito às projeções, a SulAmérica Investimentos estima uma inflação de 4,1% para 2026, ligeiramente acima da meta de 3%, enquanto a XP mantém sua estimativa em 4%, com possibilidade de viés de baixa.

