O aumento das despesas governamentais está elevando a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil, o que pode comprometer a capacidade do país de honrar o pagamento de títulos do Tesouro Direto com prazos mais longos. A projeção é de Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset Management, durante uma conferência promovida pelo UBS em São Paulo.
De acordo com Stuhlberger, a manutenção de gastos elevados em um possível quarto mandato do governo Lula pode impactar a inflação e manter a taxa de juros real em níveis elevados, mesmo diante de um eventual corte na Selic. A taxa de juros real é calculada como a diferença entre a taxa básica de juros e a inflação. Atualmente, a taxa real está fixada em 9,44%, um índice que está longe do ideal para sustentar o crescimento econômico sem gerar pressões inflacionárias.
Preocupações com os Juros Longos
O CEO da Verde Asset também manifestou preocupação com a situação dos juros longos no Brasil, que descreveu como “muito estressados”. Ele comparou os títulos brasileiros com os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, como as Treasury Inflation-Protected Securities (TIP), que oferecem pagamento de juros semestrais e têm prazos de até 30 anos. Stuhlberger observou que os juros dos papéis brasileiros estão, em média, 5% acima dos norte-americanos e 0,7% acima da média histórica, indicando que o juro longo brasileiro está “fora de lugar”, com um preço justo estimado entre 7,60% e 7,70%% antes das eleições.
Um dos fatores que contribuem para essa situação é a contínua emissão de títulos pelo Tesouro Nacional, sem levar em conta o estresse no mercado de juros longos, ao contrário de administrações anteriores que reduziram a emissão em períodos de turbulência.
“A chance do Brasil pagar juro real de 8% nos próximos 10 anos é nenhuma”, afirmou Stuhlberger durante a Latin America Investment Conference (LAIC) 2026, ocorrida em São Paulo no dia 27 de setembro.
Dívida Pública em Ascensão
Em sua análise, Stuhlberger destacou a problemática da dívida pública, que deve atingir 83,6% do PIB ao final deste ano, segundo projeções do Tesouro Nacional. Para 2025, a previsão é de que a dívida seja de 79,3% do PIB. A carga tributária, que é essencial para o aumento da arrecadação, alcançou 32,2%% do PIB em 2024, marcando um aumento de 1,98 ponto percentual em relação ao ano anterior, conforme dados recentes da Receita Federal. Se não houvesse mudanças na metodologia de cálculo, esse percentual teria chegado a 34,12%%.
Adicionando-se a carga não tributária (como royalties, concessões e dividendos de estatais), os gastos totais representariam 38%% do PIB, situação considerada “insana e insustentável” a longo prazo.
Proposta para Aposentadorias
Stuhlberger sugeriu que, no caso de reeleição de Lula, uma alternativa para reduzir os gastos públicos seria vincular o reajuste das aposentadorias à inflação, em vez do salário mínimo, que atualmente tem uma política de valorização superior ao IPCA. Ele enfatizou que “falar que o governo gastará menos é difícil”, mas uma medida que agradasse o mercado, como desvincular a Previdência do salário mínimo, poderia ter um efeito positivo na percepção de risco e acalmar o mercado.



