As métricas de inflação de janeiro são historicamente impactadas pela sazonalidade do início do ano e pela volatilidade dos preços, e em 2026 não foi diferente. O IPCA-15, divulgado hoje pelo IBGE, apresentou uma taxa de 0,20%, inferior ao índice de dezembro (0,25%) e à mediana das projeções. Apesar disso, o indicador acumulou uma alta de 4,50% nos últimos 12 meses, superando os 4,41% registrados em dezembro.
Matheus Pizzani, economista do PicPay, ressalta que a leitura menos impactante não deve ser confundida com uma composição benigno do indicador. Ele observou que diversos grupos inflacionários contribuíram de maneira difusa para o resultado.
A influência sazonal é evidente no grupo Alimentação e Bebidas, que registrou uma aceleração de 0,13% em dezembro para 0,31% em janeiro, refletindo seu peso significativo no índice. Além disso, a sequência de sete meses de queda nos preços de alimentação no domicílio foi interrompida, com uma elevação de 0,21% neste mês. Os destaques de alta foram os preços do tomate (16,28%), batata-inglesa (12,74%), frutas (1,65%) e carnes (1,32%).
Na análise de Pizzani, esse resultado é consequência de altas em alimentos com maior volatilidade de preços, como tubérculos, raízes e legumes, que subiram 10,17%, além de produtos de oferta cíclica, como a carne.
Altas e Baixas na Inflação
O comportamento dos preços apresentou heterogeneidade, segundo André Valério, economista sênior do Inter. Dos nove grupos de produtos e serviços analisados, apenas Habitação e Transportes mostraram deflação, com quedas de 0,26% e 0,13%, respectivamente. A deflação em Habitação foi impulsionada pela mudança na bandeira tarifária de amarela para verde, resultando em uma redução de 2,91% na energia elétrica residencial. Em Transportes, a queda ocorreu apesar da alta de 1,25% em combustíveis, parcialidade compensada pela redução de 8,92% em passagens aéreas e 2,79% em ônibus urbanos.
Valério também destacou que, embora as quedas nos preços de passagens aéreas tenham contribuído para suavizar os índices, houve uma piora na margem da inflação, semelhante ao que ocorreu com o IPCA cheio de dezembro. A média dos núcleos subiu de 0,32% para 0,43%, enquanto a inflação de serviços caiu de 0,7% para 0,15%, muito influenciada pela baixa nas passagens aéreas. Sem este item, a inflação de serviços teria alcançado 0,36%.
Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, reafirma essa perspectiva, observando que, embora o alívio nas passagens aéreas possa suavizar o índice geral, as pressões inflacionárias permanecem, especialmente em serviços subjacentes e bens industrializados.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, aponta para uma deterioração qualitativa nos indicadores, com aumento nas categorias observadas pelo Banco Central. A média móvel de três meses, ajustada e anualizada, indica um avanço nos núcleos e nos serviços intensivos em mão de obra, refletindo uma composição menos favorável ao desempenho atual da inflação.
O economista Heliezer Jacob, do C6 Bank, também avalia que os preços dos serviços subjacentes, que excluem itens voláteis, continuam elevados, com uma alta acumulada de 5,6% até janeiro. Essa dinâmica torna o controle da inflação uma tarefa desafiadora, mesmo com algum alívio momentâneo no índice geral.
Os analistas não acreditam que os dados apresentados hoje influenciem a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) na próxima reunião. A maioria dos especialistas prevê que a taxa Selic será mantida em janeiro, com cortes sendo considerados para março.



