A possível nomeação de Kevin Warsh para liderar o Federal Reserve, substituindo Jerome Powell em maio de 2024, sinaliza o retorno de uma figura que possui um profundo entendimento do sistema financeiro dos Estados Unidos. Warsh, ex-diretor do banco central, ganhou notoriedade durante a crise financeira de 2008 e, desde então, tem sido um crítico franco das políticas monetárias do Fed.
Warsh foi membro do Conselho de Governadores do Federal Reserve entre 2006 e 2011, período marcado pelo colapso do Lehman Brothers e pela implementação de medidas de estímulo sem precedentes. Ele se destacou nas negociações entre o Tesouro, o banco central e instituições financeiras de grande porte, sendo reconhecido como um operador técnico influente em Washington e Wall Street.
Após deixar o cargo, manteve conexões com o setor financeiro e acadêmico, ocupando posições em conselhos corporativos e think tanks. Recentemente, no entanto, sua abordagem tornou-se mais crítica em relação ao tamanho do balanço do Fed e à continuidade de políticas monetárias expansivas. Ele é um defensor do que denomina “aperto quantitativo”.
Em suas aparições públicas, Warsh tem defendido uma “mudança de regime” na política monetária, sugerindo uma revisão nas diretrizes que orientam decisões sobre juros, comunicação e intervenção em mercados. Para ele, muitos dos problemas atuais, como distorções nos preços dos ativos e a perda de credibilidade, são “autoinfligidos” pelo banco central.
Essa perspectiva coloca Warsh em uma posição peculiar dentro do debate econômico. Ele advoga por juros mais baixos no curto prazo, o que está alinhado com a posição da atual administração, mas critica a expansão contínua do balanço do Fed e o esforço para manter os juros de longo prazo artificialmente baixos.
Sua relação política com o ex-presidente Donald Trump se intensificou durante o segundo mandato dele. Se em 2017, Warsh era visto como um candidato independente, hoje ele apoia aspectos fundamentais da agenda econômica de Trump, incluindo críticas à gestão do Fed sob Powell e uma maior aceitação de políticas comerciais protecionistas. Trump já expressou arrependimento por não tê-lo escolhido antes, indicando que Warsh se tornou uma figura de confiança para o ex-presidente.
Além disso, sua posição é sustentada por uma rede de influências: Warsh é casado com Jane Lauder, herdeira do grupo Estée Lauder, e genro de Ronald Lauder, um empresário bilionário e uma figura proeminente no establishment republicano. Lauder tem uma conexão de longa data com Trump e foi um financiador importante de sua campanha.
Se a nomeação de Warsh for confirmada, ele enfrentará desafios significativos. O primeiro será garantir a credibilidade do Federal Reserve em um cenário de intensa pressão quanto à sua independência. O segundo se relaciona à necessidade de transitar para uma política monetária menos expansionista, minimizando os impactos em mercados já sensíveis a mudanças nas taxas de juros e liquidez.
Além disso, Warsh passará por um processo de confirmação no Senado em meio a um ambiente político complexo, marcado por tensões entre o Congresso, a Casa Branca e o banco central.



