Introdução
Este documento apresenta informações sobre o “Cammino di verità”, um projeto iniciado na primavera de 2024, após o recebimento de denúncias sobre abusos sexuais cometidos por P. Sauro De Luca, um ex-membro da Companhia de Jesus, durante suas atividades com o Movimento Eucarístico Juvenil (MEG). P. Renato Colizzi, responsável nacional do MEG, coordenou a resposta a essas denúncias, começando uma fase de escuta para vítimas e testemunhas, com a ajuda de uma pessoa externa à Companhia de Jesus.
A investigação remonta a 2010, quando surgiram as primeiras denúncias. Na ocasião, o recém-criado Departamento de Proteção iniciou uma apuração preliminar, resultando em restrições à atuação de P. De Luca, que foi afastado para refletir sobre suas ações. Durante esse período, ele fez algumas confissões, mas não houve processo judicial, pois adoecera gravemente e faleceu um ano depois.
Após a morte de P. De Luca, decidiu-se que as informações sobre o caso não seriam tornadas públicas devido à presunção de inocência, à incapacidade de defesa do acusado e ao desejo de anonimato por parte das vítimas.
Em linha com as diretrizes da Igreja, a Província iniciou mudanças internas para aumentar a conscientização sobre a proteção e estabeleceu uma Delegacia para os abusos em 2010.
Apesar das investigações realizadas entre 2010 e 2012, novas denúncias surgiram em 2024. A Província definiu, então, um novo canal de escuta, garantindo a privacidade das vítimas e buscando compreender a “realidade existencial” dos eventos.
O Caminho de Verdade
O “Cammino di verità” foi feito para revisitar os eventos de 2010 e buscar ouvir novamente as vítimas, partindo da premissa de que os relatos são válidos, mesmo que não possam ser confirmados por vias legais. O início dessa nova fase foi divulgado em 1º de outubro de 2024, em entrevistas, onde P. Colizzi destacou a importância de focar nas vivências daquelas que sofreram.
Em maio de 2024, a Dra. Grazia Villani foi escolhida para ouvir as vítimas que se manifestaram após a divulgação das entrevistas. Ela realizou este trabalho de maneira voluntária.
O Relato
Processo de Escuta
O “Cammino di verità” teve um processo complexo, considerando as melhores formas de se comunicar com as vítimas dos abusos. O tempo decorrido desde os eventos dificultou as investigações, com muitos testemunhos já tendo falecido e outros lembrando apenas fragmentos.
A Dra. Villani teve acesso a documentos que traçam a vida de P. De Luca, provenientes do arquivo da Província. Ela também descobriu um acervo pessoal do ex-religioso, que continha diários onde estavam descritos abusos cometidos contra cerca de trinta mulheres, incluindo menores.
As vítimas que buscaram a Dra. Villani pediram anonimato, e somente duas se identificaram ao contatar diretamente a Curia Provincial.
Números Coletados
Durante a fase de escuta do “Cammino di verità”, que ocorreu entre outubro de 2024 e setembro de 2025, mais de 60 pessoas foram ouvidas:
- 25 vítimas de abuso (20 diretamente por parte de P. De Luca)
- 22 adultos envolvidos com o MEG
- 16 padres jesuítas
Esses números não refletem o total de vítimas, pois outros nomes foram mencionados, mas não pôde haver contato.
Perfil do Autor e Tipos de Abuso
P. Sauro De Luca foi Diretor Nacional do MEG de 1968 a 1998, e era conhecido por sua habilidade e carisma. Ele utilizava sua posição de autoridade para manipular jovens mulheres, incluindo menores. Seus abusos, que incluíam tanto violência espiritual quanto sexual, ocorriam em diversos locais, como Roma e Assisi.
Quando algumas garotas tentaram confrontá-lo, ele reagia com agressividade, confundindo-as sobre a natureza de suas ações.
Conhecimento de Denúncias e Processos
Membros da companhia ouvintes durante o “Cammino di verità”, incluindo gesuitas que trabalharam com P. De Luca, afirmaram não ter percebido ações impróprias. Entre os leigos, alguns comportamentos inadequados eram conhecidos, mas o impacto não foi devidamente considerado.
Entre os anos 1980 e 2010, denúncias chegaram aos superiores de P. De Luca, mas não houve ação. Mesmo após restrições, ele não respeitou as ordens e continuou a interagir com famílias.
Adicionalmente, um outro padre jesuíta também foi acusado de abusos, e neste caso, novos protocolos implementados em 2015 permitiram ações rápidas e adequadas.
Pedimos Perdão
Às vítimas, àqueles que se sentiram não ouvidos e aos que sofreram em silêncio, a Província EUM da Companhia de Jesus pede perdão. Reconhecemos falhas graves no manejo das denúncias e estamos comprometidos em agir com mais responsabilidade e consciência.
Nosso Compromisso
Os eventos relacionados a P. De Luca revelaram a necessidade urgente de aprimorar formas de prevenção e treinamento dentro da Companhia. Algumas medidas já foram implementadas:
- Criação de um Departamento de Proteção com pessoal especializado.
- Formação contínua sobre proteção e compromisso ético para todos os jesuítas.
Medidas em Implementação
Outras iniciativas estão sendo desenvolvidas, incluindo:
- Elaboração de um manual de cuidados para educar nosso pessoal.
- Código de conduta claro e severo, enfatizando a responsabilidade de todos na proteção de menores.
- Treinamento obrigatório em segurança para todos os que trabalham conosco.
Conclusão
Diante dos desafios apresentados, o “Cammino di verità” é uma oportunidade de renovação genuína dentro da Companhia de Jesus. Este processo, alinhado com os esforços da Igreja, busca enfrentar a questão dos abusos que se revela, cada vez mais, como um problema sistêmico. O compromisso de aprender com erros do passado e seguir em frente com esperança é fundamental. Estamos disponíveis para diálogo e aprofundamento sobre este assunto.



