A divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada em 3 de outubro, indica que o Banco Central está se preparando para iniciar um ciclo de redução das taxas de juros já em março de 2024. No entanto, o documento apresenta um tom cauteloso. A autoridade monetária reconhece a melhora no cenário inflacionário e nas condições externas, mas ressalta que a extensão e a velocidade dos cortes dependerão de fatores como a resiliência do mercado de trabalho e a situação fiscal.
Economistas e analistas de mercado interpretaram a ata como uma confirmação da declaração emitida após a reunião, considerando-a “neutra” e sem grandes surpresas. De acordo com Caio Megale, economista-chefe da XP, a nota “reforça a expectativa de que o ciclo de flexibilização monetária cauteloso terá início em março, se o cenário se manter conforme previsto pelo Copom”.
Um dos pontos destacados no documento é a situação do mercado de trabalho brasileiro, que continua aquecido, mantendo a renda real média em crescimento acima da produtividade. Esse cenário é motivo de preocupação para o Banco Central, pois pode impactar o setor de serviços, dificultando o atingimento da meta de inflação de 3%.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, sinaliza que a dinâmica do mercado de trabalho será um fator crucial nas decisões futuras. Ele explica que a pressão sobre os preços de serviços, especialmente em setores que dependem de mão de obra, continua sendo uma fonte de atenção para a entidade.
No cenário internacional, o Copom reconhece que a incerteza diminuiu, com a estabilização dos preços das commodities e condições financeiras mais favoráveis. Contudo, as incertezas internas quanto aos impactos fiscais ainda exigem uma postura mais conservadora.
Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, destaca que a desaceleração da inflação proporciona espaço para cortes, mas o Comitê deve permanecer vigilante. Ela sugere que uma política fiscal mais rigorosa para 2027 poderia ajudar a ancorar as expectativas, viabilizando cortes adicionais no futuro.
Apesar da desaceleração consistente da inflação medida por índices gerais e subjacentes, o Copom evitou compromissos quanto à intensidade do ciclo de cortes, uma estratégia que visa evitar excessos de otimismo que poderiam levar a uma precificação excessiva nas taxas de juros. A análise da Warren Investimentos salienta que a escolha da palavra “serenidade” no comunicado reflete o desejo de conter o entusiasmo do mercado. A instituição projeta um início de redução de 50 pontos-base, mas alerta que o total de cortes poderá ser menor, dependendo da evolução do cenário econômico.
As previsões das consultorias estão alinhadas para um ciclo de flexibilização moderado. Leonardo Costa, economista do ASA, antecipa um corte inicial de 25 pontos-base em março, com a possibilidade de aumento para 50 bps. Julio Barros, do Daycoval, apoia essa projeção, enquanto Rodrigo Marques, da Nest Asset Management, também expectativas semelhantes para as reuniões seguintes.
Por outro lado, Caio Megale, da XP, prevê cinco cortes consecutivos de 50 pontos-base, iniciando em março, até que a Selic atinja 12,50%. Rafaela Vitória, do Inter, concorda com essa previsão, salientando que uma aceleração no ritmo dos cortes dependeria de uma desaceleração mais significativa da economia ou de uma valorização do câmbio.
A Warren Investimentos reafirma a expectativa de cortes começando em 50 pontos-base em março, mantendo continuidade nas reuniões subsequentes, mas alerta que o ciclo poderá ser interrompido antes da meta de 300 bps, caso o cenário econômico se deteriore. Mesmo diante das quedas, a XP observa que a taxa de juro real deve permanecer elevada, em torno de 8,0%, refletindo os desafios fiscais previstos para o próximo período.



