BARRETOS, Brasil, 7 de janeiro (Reuters) – O Brasil superou os Estados Unidos e se tornou o maior produtor mundial de carne bovina em 2022, segundo estimativas de mercado. O crescimento da produção brasileira, que superou as previsões em centenas de milhares de toneladas, contribuiu para a estabilidade da oferta global e evitou um aumento acentuado nos preços.
O Brasil já se destacava como o principal exportador de carne bovina, com embarques atingindo quase US$ 17 bilhões em 2025, conforme dados do governo. Embora os números oficiais de produção sejam divulgados apenas em fevereiro, analistas têm revisado para cima suas estimativas, destacando a estratégia dos pecuaristas que, atraídos pela alta demanda de exportações de países como China e EUA, estão enviando mais animais para o abate. Essa demanda se intensificou devido à escassez de oferta nos Estados Unidos, resultando em preços recordes da carne bovina.
Historicamente, altos índices de abate costumam levar a uma diminuição da produção no futuro, com os produtores retendo animais para reprodução e recomposição dos rebanhos. No entanto, especialistas acreditam que os ganhos de produtividade no Brasil podem mitigar essa tendência, uma vez que as técnicas avançadas de inseminação têm acelerado o crescimento dos animais e permitido um abatimento mais precoce.
Vinicius Barbosa, gerente comercial da CMA em Barretos, cerca de 420 km ao norte de São Paulo, comentou que a idade média do gado abatido caiu de cinco anos há dez anos para 36 meses, com projeções de redução para 24 meses. Mauricio Nogueira, diretor da consultoria Athenagro, relatou que a produção de carne bovina brasileira superou as expectativas de crescimento para 2025, crescendo 4% quando a previsão era de um recuo de 2,7%. Esse aumento de aproximadamente 800.000 toneladas equivale às exportações anuais da Argentina, o quinto maior exportador global de carne bovina.
O Rabobank, anteriormente pessimista quanto à produção, agora projeta um incremento de 0,5%, alcançando 12,5 milhões de toneladas de carne bovina. Por outro lado, as estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) aumentaram em 450.000 toneladas, passando para 12,35 milhões de toneladas.
Se as previsões se confirmarem, 2025 marcará o primeiro ano em que a produção brasileira superará a dos EUA, que sofreu uma queda de 3,9% para 11,8 milhões de toneladas, segundo o USDA, devido a anos de seca.
Confinamento e eficiência na produção de carne
As estimativas do USDA indicam que a produção de carne bovina dos EUA deve despencar mais 0,9% em 2026, atingindo 11,7 milhões de toneladas. No Brasil, enquanto as projeções indicam um possível recuo, Nogueira ressalta que a produtividade pode aumentar a produção em até 300.000 toneladas.
Quase 28% do gado abatido no Brasil deve ser engordado em confinamento até 2027, um aumento em relação aos 22% estimados para 2025, conforme a Scot Consultoria. Barbosa explica que o confinamento permite resultados significativos, proporcionando em 100 dias o que levaria de 18 a 24 meses a pasto. Por exemplo, o confinamento da CMA em Barretos planeja processar 80.000 bovinos em 2026, um aumento em relação aos 65.000 do ano anterior.
A expansão do setor de etanol de milho no Brasil tem gerado um subproduto, os grãos secos de destilaria, que oferece mais proteína para o gado e acelera seu engordamento. Além disso, a adoção de técnicas de inseminação mais eficientes está aumentando a taxa de prenhez das vacas, permitindo maior abatimento sem diminuir o rebanho.
A Scot Consultoria prevê que a taxa de prenhez no Brasil subirá para 54% até 2027, em comparação com 50% esperados em 2026. A melhoria genética também está impulsionando tanto o crescimento quanto a qualidade do gado, ainda distante dos índices de confinamento de 90% observados nos EUA ou 40% na Austrália.
Dados governamentais indicam que o Brasil possui 238 milhões de cabeças de gado, mais que o dobro dos 94 milhões dos EUA. A alta produtividade pode expandir a produção sem a necessidade de aumentar o rebanho ou a área de pastagens, contribuindo para a mitigação das pressões econômicas sobre o desmatamento da Amazônia.
Entre 2024 e 2034, espera-se que o rebanho bovino brasileiro cresça apenas 4%, enquanto a produção de carne aumentará 24%, segundo a Abiec, que representa os exportadores de carne bovina do Brasil. Para os EUA, projeta-se um aumento de apenas 3,5% na produção de carne e 5% no número de cabeças de gado no mesmo período.
O papel crucial do Brasil no mercado global de carne
A produção de carne bovina no Brasil será um fator determinante para os preços globais em 2026, conforme o USDA antecipa uma queda de 2,4% nos seis maiores produtores mundiais, o que representaria a maior queda em décadas.
A lista dos principais produtores, que inclui Brasil, EUA, China, União Europeia, Argentina e Austrália, não abrange a Índia, que, conforme o USDA, é mencionada devido à produção de carne de búfalo. Se a produção brasileira confirmar um aumento para 12,6 milhões de toneladas, a diminuição total entre os seis maiores produtores não passaria de 0,2%.
Guilherme Jank, analista da Datagro, destacou que a demanda internacional por carne bovina brasileira nunca foi tão elevada, e os frigoríficos estão ampliando suas capacidades. “Estamos assistindo a uma transformação significativa na cadeia de fornecimento de carne bovina no Brasil, em termos de qualidade, escala, eficiência e produtividade”, afirmou.
(Reportagem de Ana Mano em Barretos e Peter Hobson em Canberra; com contribuições de Ella Cao, em Pequim, e Tom Polansek, em Chicago)



