No discurso de posse de seu segundo mandato em janeiro de 2025, Donald Trump reafirmou sua estratégia comercial voltada para o protecionismo. “Em vez de tributar nossos cidadãos para enriquecer outros países, aplicaremos tarifas e impostos aos países estrangeiros para enriquecer nossos cidadãos”, declarou. Em poucos meses, ele implementou tarifas sobre importações da China, que foi seu principal alvo, e de outros parceiros comerciais nas Américas e na Europa, adotando uma abordagem ainda mais agressiva do que na sua primeira administração (2017-2021).
Em abril, Trump anunciou tarifas sobre produtos provenientes de aproximadamente cem países, em um evento denominado “Dia da Libertação”. As taxas sobre as importações americanas começaram em 10%, incluindo nações da América Latina.
As reações não tardaram a surgir: os mercados financeiros enfrentaram quedas significativas e governos, empresas e organizações multilaterais buscaram isenções. Além disso, bancos começaram a prever uma possível recessão nos Estados Unidos. A Suprema Corte ainda analisa a constitucionalidade das medidas, mas, independentemente do resultado, a estratégia de Trump já reconfigurou as relações comerciais globais.
Impacto das Tarifas na América Latina
Nos anos 1990, o México era o único país da América Latina a ter um acordo comercial com os EUA, que incluía o Canadá. Durante seu primeiro mandato, Trump renegociou esse pacto, e em 2004 o Chile também firmou um Tratado de Livre Comércio. Atualmente, os Estados Unidos mantêm acordos com países como Colômbia, Peru, Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Guatemala, Nicarágua, Panamá e El Salvador. Apesar disso, Trump optou por aplicar tarifas a todos, com algumas exceções como cobre e petróleo.
Os economistas expressam preocupações sobre o impacto das tarifas. Osvaldo Rosales, ex-negociador-chefe do Chile com os EUA, destacou que as ações de Trump desrespeitam acordos comerciais e os princípios do multilateralismo, caracterizando esse momento como um “início de um pesadelo”. O Brasil, por exemplo, sofreu uma “tarifa recíproca” inicial de 10%, que aumentou para 40% devido a questões políticas, embora tenha conseguido exceções para diversos produtos.
Carol Wise, acadêmica da Universidade do Sul da Califórnia, ressaltou que as tarifas de Trump agravaram um cenário comercial já complicado para a América Latina, com efeitos aleatórios que geram fricções entre os países. Recentemente, as tensões aumentaram após os EUA invadirem a Venezuela e sequestrarem o presidente Nicolás Maduro, alimentando preocupações sobre os interesses americanos em recursos petrolíferos.
A Doutrina Monroe, que proíbe intervenções europeias na América, foi revitalizada por Trump, que promoveu a ideia de que o Canadá poderia se tornar o 51º estado dos EUA. O atual presidente também tem feito ameaças a regiões como a Groenlândia, que pertence à Dinamarca.
Por receio de represálias, muitos líderes latino-americanos, como os presidentes da Argentina, do Chile e de El Salvador, procuram se aproximar de Trump, embora essa relação seja vista por especialistas como ineficaz. Em contraste, líderes do Brasil, Colômbia e México optam por uma postura mais resistente, porém cautelosa.
A Repercussão Global e as Respostas da América Latina
Com a política protecionista dos EUA, especialistas debatem o futuro da globalização, que vinha dominando o cenário econômico pós-Guerra Fria. Pierre van der Eng, pesquisador da Universidade Nacional da Austrália, observou que as ações unilaterais dos EUA, incluindo a saída de 66 instituições multilaterais, não indicam que o resto do mundo esteja seguindo o mesmo caminho de restrições comerciais.
Wise complementa que, apesar das pressões dos EUA, a China tem se mostrado um parceiro comercial relevante para países como Brasil, Chile e Peru, que mantêm superávits em suas relações apesar dos desafios. Entretanto, outros países da América Latina, como o México, lutam com déficits comerciais crescentes frente à China.
Wise ainda observou que a diplomacia chinesa e sua abordagem desenvolvimentista têm sido favoráveis à América Latina, especialmente diante de políticas hostis de Trump, como deportações e ameaças a nações da região. Isso levou alguns países a aprofundarem vínculos com a China em áreas como infraestrutura e tecnologia verde.
Rosales sugeriu que é fundamental para a América Latina reforçar suas relações com a União Europeia e outras economias da região Ásia-Pacífico, destacando que a interrupção das negociações do acordo entre UE e Mercosul é um exemplo das consequências adversas das políticas de Trump.



