(Bloomberg) — Donald Trump se destaca como o presidente dos EUA que mais impôs tarifas nos últimos cem anos, mas somente uma fração das medidas ameaçadas foi realmente aplicada. A recente retirada de uma tarifa proposta contra países europeus relacionada à Groenlândia ilustra como Trump frequentemente utiliza as tarifas como uma ferramenta de pressão, mas sem concretizá-las.
Até o momento, o presidente não implementou as tarifas generalizadas prometidas ao México e ao Canadá, nem sobre itens como semicondutores e filmes estrangeiros. Além disso, tarifas secundárias contra países que fazem negócios com adversários dos EUA, como o Irã, ainda não se materializaram.
Trump justifica sua estratégia, afirmando que a iminência de tarifas ajudou os EUA a garantir concessões comerciais e resolver conflitos internacionais. Contudo, especialistas alertam que as contrapartes começam a se habituar a essas táticas, o que pode diminuir seu impacto. “Há claramente um problema de credibilidade no governo americano”, aponta Tim Meyer, professor de comércio internacional na Duke Law School. “Outros países já entenderam a dinâmica: eles anunciam um acordo e esperam que o assunto desapareça.”
Retaliações e Credibilidade
Importantes recuos nas ameaças tarifárias ocorreram especialmente após reações adversas, como foi o caso com a China. Embora Trump tenha elevado tarifas a níveis elevados, recuou quando Pequim indicou que bloquearia exportações essenciais.
Recentemente, Trump ameaçou impor tarifas de 10% a 25% sobre produtos europeus, a menos que um acordo fosse alcançado para a compra da Groenlândia. Esse discurso provocou críticas entre aliados da União Europeia, levando a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a declarar que “um acordo é um acordo.”
O representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que a UE não cumpriu suas obrigações, apesar das ações rápidas dos EUA para reduzir suas tarifas. “Se os Estados Unidos conseguem dividir questões políticas e econômicas, a União Europeia não deve usar isso como desculpa para o descumprimento”, ressaltou Greer.
Reações nos Mercados e Estratégias Comerciais
A reação dos mercados também pode influenciar os recuos de Trump. As ações e títulos do Tesouro dos EUA caíram no início da semana, mas se recuperaram após anúncios mais favoráveis. Investidores agora incorporam a possibilidade de que Trump não mantenha suas promessas, criando até um termo para essa tendência: “TACO trade” (Trump Always Chickens Out).
A Casa Branca defendeu a disposição de Trump em agir, citando operações militares como as realizadas contra a Venezuela e o Irã. O presidente ressalta acordos comerciais firmados com nações como Japão e Coreia do Sul e afirma que sua política protecionista terá um efeito positivo sobre a manufatura nos EUA, gerando uma receita aproximada de US$ 30 bilhões por mês para o governo.
Os impactos das tarifas sobre o consumidor americano não foram tão altos quanto o previsto, em parte devido a isenções e à aplicação de tarifas efetivas que são inferiores às anunciadas. Um estudo recente, coassinado pela economista de Harvard Gita Gopinath, mostrou que a alíquota efetiva sobre importações nos EUA era, em setembro, apenas metade da alíquota legal.
Planos Futuros e Incertezas
Algumas ameaças tarifárias permanecem em aberto, como a proposta de 25% dirigidas a países que comercializam com o Irã. Trump afirmou que essa medida está por vir, mas ainda não foram divulgados detalhes. Isso se insere nas chamadas tarifas secundárias, uma estratégia que ele ainda não implementou concretamente, embora tenha cogitado usar contra a Venezuela e a Rússia.
No Fórum Econômico Mundial, Trump destacou uma interação tensa com a Suíça, onde elevou tarifas após um descontentamento pessoal. “Ela simplesmente me irritou, para ser honesto”, comentou o presidente, implicando que essa abordagem poderia obstaculizar relações comerciais com países aliados.
A eventualeldidade de Trump enfrentar restrições legais para impor tarifas pode forçá-lo a adotar outras estratégias. Contudo, o clima atual de incerteza sobre a política tarifária preocupa até mesmo os defensores do protecionismo. Oren Cass, do American Compass Institute, alerta que essa situação pode desestabilizar acordos já firmados.
Trump utiliza a recente situação da Groenlândia como um exemplo de sucesso de suas táticas, sugerindo que mais ameaças estão por vir. “Os europeus devem se preparar para futuras surpresas”, afirmou Josh Lipsky, do Atlantic Council.
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